Este é o título de um pequeno livro com apenas 200 páginas, mas que condensa de forma precisa um dos factos históricos mais esquecidos da história: o tráfico negreiro arabo-muçulmano.
A discussão de escravatura ainda causa forte controvérsia, sendo muitas vezes usado o argumento que não podemos usar os critérios éticos atuais para julgar o passado. Nada mais errado, o facto de podermos julgar os atos do passado é o que nos dá o suporte para podemos afirmar que a Humanidade evoluiu coletivamente.
No entanto se todos os povos da humanidade praticaram no passado formas de escravatura/servidão, qual é a excecionalidade do tráfico negreiro? Esta pergunta é efetuada muitas vezes no países ocidentais para procurar minimizar este crime.
A escravatura esteve historicamente associada aos conflitos entre povos, onde os derrotados eram escravizados. Mesmo dentro da mesma comunidade poderiam existir situações de domínio, embora tipicamente e pelo tratamento ser menos repressivo ser designado de servidão.
Existe um consenso histórico que pelo menos formas de servidão existiam nas sociedades africanas. Mas a chegada dos árabes no sec. VII veio mudar tudo de forma radical. Sob a capa religiosa da necessidade de conversão, o Islão trouxe uma total disrupção das sociedades africanas a norte do equador.
É aqui que se inicia o tráfico de escravos para o países do Médio Oriente, que privará milhões da sua liberdade. Esta disrupção alarga-se aos líderes africanos (muitos recém islamizados) que se dedicam a alimentar este trafico. Quando os europeus chegaram no sec. XV este tráfico que já estava instalado e ganhou um novo impulso, duplicando uma tragédia já instalada há 700 anos.
Voltando à questão inicial, o que tem de especial o tráfico negreiro face a outras forma de escravatura que existiram? A resposta é o racismo. Tanto no caso dos árabes como depois dos europeus existia uma justificação de inferioridade dos negros que justificava do ponto de vista moral a escravatura, fazendo-a aos seus olhos como natural, inevitável e necessária.
Mas se árabes praticaram trafico negreiro durante 1300 anos, por que razão é o mundo ocidental que leva com a culpa por 400 anos de tráfico de escravos? A resposta parece-me estar no processo de abolição de escravatura. Foi liderada por abolicionistas europeus e sempre associado à ideia que era um crime. Ou seja, mesmo com o colonialismo que se desenvolveu nos sec XIX-XX em África, ficou consolidada a ideia da escravatura ser intrinsecamente reprovável. É claro que do ponto de vista prático o colonialismo substitui muitas vezes a escravidão por trabalhos forçados, mas formalmente a escravatura acabou.
Quando á escravatura arabo-muçulmana nunca conheceu este tipo de reflexão moral, e ironicamente em África só foi interrompida pelas potências coloniais europeias, em especial a França e Inglaterra, já em pleno sec XX .
Não sou grande adepto da ideia de que alguém seja de um país que praticou no passado trafico de escravos deve ser responsabilizado por isso (a ideia parece-me mesmo um disparate). Mas sou um forte defensor que nunca devemos relativizar as grandes tragédias da história. O continente africano foi privado durante 1500 anos, de milhões de crianças, homens e mulheres, forçados a uma vida de sofrimento, em locais dezenas de milhares de quilómetros de suas casas. A história serve para não repetirmos os nossos erros e em especial o quão catastrófico pode ser, se deixarmos de acreditar que somos todos iguais.

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