Um admirável (ou talvez abominável) mundo novo






Nos últimos meses fomos surpreendidos com algumas notícias sobre a intenção do governo chinês querer instalar um sistema de ranking social, onde a cada cidadão seria atribuída uma pontuação com base nas suas boas e más ações. Essa pontuação condicionaria acesso a bens e serviços por parte do estado chinês. Mas o mais fascinante e ao mesmo tempo assustador é que do ponto de vista tecnológico o Estado chinês não precisa de construir nada de novo, esse trabalho já está a ser feito diariamente na China por companhias privadas como veremos a seguir.

Enquanto no Ocidente nos entretemos com as nossas discussões de privacidade sobre o Facebook e a Google e compramos descontraidamente na Amazon ou usamos o Paypal para pagar, não nos apercebemos que o futuro está a ser rapidamente construido no outro lado do mundo. Os gigantes chineses Alibaba e Tencent desenvolveram nos últimos anos, novos modelos de negócios que estão a deixar anos-luz estes ícones ocidentais da tecnologia online.
 
O conceito que estas empresas chinesas inventaram foi a construção de ecossistemas digitais online integrados de múltiplas apps usando a plataforma mobile. Para entender melhor este conceito vejamos o que acontece atualmente no Ocidente: temos as nossas redes sociais e apps como o Facebook, Whats-up ou Messenger, locais de compra online como E-bay ou Amazon, plataformas de partilha como Uber ou Airbnb, ou sistemas pagamento mobile como o Apple Pay ou mais modestamente o português MBway. Imaginemos agora que tínhamos tudo isto integrado num só sistema, numa só plataforma. É isto que construíram a Alibaba e a Tencent com resultados absolutamente revolucionários na China.


 
A China num espaço de 5 anos tornou-se numa gigantesca sociedade mobile, numa das mais rápidas transformações sociais de sempre na sociedade humana. Num país onde a utilização de cartões bancários era reduzida e onde praticamente não existia mercado de crédito, deu-se um salto imediato para pagamentos massivos com telemóvel, praticamente eliminando o uso de notas e moedas nas grandes cidades, onde quase todo comércio, mesmo o de rua é efetuado com pagamentos por telemóvel. Em 2016 o mercado mobile atingiu um valor recorde de 5,5 bilhões de dólares, 50 vezes mais que nos EUA. Esta revolução mobile nos pagamentos, por paradoxal que nos pareça, tem mais facilidade em ser alcançada em países com menor uso de meios de pagamento tradicional como cartões, da mesma forma que no passado estes países não construíram redes de telefone fixo, saltando diretamente para a tecnologia de comunicação moveis.
 
A revista Wired em dezembro publicou um excelente artigo (link aqui), que vivamente recomendo a leitura, sobre estas transformações sociais na China, dando como exemplo Lazarus Liu que em 2015 regressou à China após ter passado 3 anos a estudar em Inglaterra. A primeira coisa que notou é que tudo agora era pago com telemóvel e só precisava de duas apps: a Alipay (criada pela Alibaba) e a sua recente concorrente WeChat Pay (criada em 2013 pela Tencent). Quando viu uma senhora idosa a pagar como telemóvel num mercado de rua de vegetais, percebeu que já ninguém podia viver sem estas apps e instalou de imediato o Alipay.
 
A partir daqui Lazarus começou a sua experiência social igual à que centenas de milhões de chineses estão neste momento a passar. Todo o seu dia-a-dia passou a ser feito através desta app. Encomendar comida online, pagar estacionamento, pagar contas, efetuar marcações médicas, contactar e adicionar amigos através da componente de redes sociais desta app. Esta febre de integração faz com que até aplicações terceiras como Uber ou a Airbnb possam ser abertas dentro do AliPay. Atualmente até já está a ser experimentado fazer pagamentos apenas com reconhecimento facial.
 
 


Um passo em diante foi o lançamento do Sesame Credit pela Alipay. Certamente é o mais avançado exemplo mundial de uso de big data para atribuição de um score individual a cada cliente para efeitos de atribuição de crédito. Compreende-se que não falta informação para a construção deste objetivo. Para além de toda a informação de compras, têm o registo das interações sociais, lista de amigos, situação familiar, hábitos diários, preferências pessoais e tudo mais que puderem recolher pelo crescente nº de apps que vão integrando.
 
Mas a integração em toda a plataforma Alipay torna toda a experiência de compras mais recompensadora quando esse score é maior. Por exemplo quando se tem score elevado fica-se dispensado de cauções em alugueres de automóveis ou obtém-se melhores condições no aluguer de casas. Mas esse score tem também benefícios mesmo fora do âmbito de pagamentos, servindo por exemplo para ser dispensado de ser revistado nos aeroportos chineses ou até ser uma característica positiva em apps de encontros.

Não se pense que este score é algo que seja estático e aqui percebemos como tudo é diferente face ao que temos no ocidente. A própria app alerta para um score baixo e existem fortes incentivos em aumentá-lo. Este é o aspeto de transformação social mais pernicioso e acabamos por transformar o nosso comportamento individual em função do mesmo. Por exemplo no Sesame Credit beneficiamos quando os nossos amigos têm bom score e penaliza-nos quando o contrário ocorre, um incentivo perverso para escolha dos nossos amigos. Mesmo que o Sesame Credit não divulgue grande parte dos parâmetros, as pessoas sabem que certos aspetos como doar dinheiro para caridade podem melhorar a sua situação.
 
 
O Estado chinês no passado já tinha experimentado na cidade de Suining um sistema de atribuição de pontos começando cada cidadão com 1000 pontos sendo aumentado por boas ações (por exemplo cuidar dos familiares idosos adicionava 50 pontos) ou diminuído por más ações (por exemplo ter conduzir bêbado retirava 50 pontos). Conforme a classificação final a população recebia uma notação de A (a melhor) até D (a pior). Quem estava na notação A tinha prioridade na admissão em escolas e em emprego; quem tinha pior notação (D) podia vir a ser negado serviços sociais.
 
Foi uma experiência rudimentar e o Estado chinês rapidamente chegou à conclusão que podia aproveitar toda a informação que as empresas tecnológicas já recolhem e que num estado totalitário sabe que não podem recusar o seu envio. É por esta razão que se sente confiante em implementar um sistema de ranking social já em 2020.
 
Quanto a nós no Ocidente é difícil imaginar um futuro em que exista respeito pelos nossos conceitos de proteção de dados pessoais, mesmo que na prática (como vimos no caso Facebook recentemente) sejam apenas teóricos, não se concretizando do dia-a-dia. Inclusivamente na Europa a diretiva PSD2 vai facilitar em muito, estes novos serviços de pagamento.
 
Certamente que o que aconteceu na China com o Alipay e o WeChat vai replicar-se no ocidente como modelo de negócio pela simples razão que se as empresas ocidentais não o fizerem as chinesas o farão. Não podemos pensar que num mundo globalizado ficariam restritas à China. Na Índia foi considerado uma prioridade nacional o combate à economia informal e uma das formas que o estado escolheu foi tentar reduzir ao mínimo as transações em dinheiro tendo mesmo acabado com o curso legal de algumas notas. Por outro lado, tem criado incentivos para que empresas como a PayTM (em parte detida pela Alibaba) promovam o pagamentos com telemóveis. Adicionalmente informatizou toda a informação biométrica dos seus habitantes, podendo os indianos usar a impressão digital como forma de autenticação em várias circunstâncias, dispensando qualquer outro meio de identificação
 
 


Pode-nos parecer caricato, mas o Ocidente e em especial os EUA (onde as empresas VISA e Mastercard têm ainda grande influência) podem facilmente ficar na cauda mundial a nível tecnológico nos pagamentos. Não existem dúvidas que num curto espaço de tempo (5-10 anos), os cartões de crédito e débito vão-se tornar-se totalmente obsoletos, assim como produtos derivados como os TPAs. Por outro lado, a força dos gigantes chineses está a sentir-se no Ocidente onde por exemplo a oferta pública inicial de venda nos EUA do grupo Alibaba atingiu a soma astronómica de 25 mil milhões de dólares. Até no nosso país o BCP concluiu uma parceria estratégica com a grupo Alibaba que vai permitir no curto prazo, por exemplo, que os turistas chineses possam usar o o Alipay em Portugal.
 
Quanto ao ranking social, que o governo chinês quer implementar, é totalmente contrário ao nosso sistema democrático e por enquanto não deveríamos ter que preocupar. No entanto mesmo experiências inocentes como a app CityPoints, do município de Sintra onde boas ações, (como reciclar, dar sangue) dão pontos que podem ser trocados por serviços gratuitos (horas de estacionamento por exemplo), faz-nos pensar se não têm a mesma lógica: incentivar o cidadão a mudar o seu comportamento. A única diferença é que na app do município de Sintra não existem por enquanto penalizações.
 
Em conclusão, a rapidez com que estas transformações ocorrem quase não nos permitem aperceber de tudo o que está em jogo e o quanto estamos a perder da nossa privacidade por mais serviços financeiros e benefícios públicos. Mas basta olhar para China para termos um deslumbre do futuro e refletirmos se caminhamos para um admirável, ou pelo contrário, para um abominável mundo novo.


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Canais Youtube: Alibaba , WeChat


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