Uma América descontente vai a votos no plebiscito de 6 de Novembro a Donald Trump


O novo documentário de Michael More Fahrenheit 11/9 foi apresentado como uma reflexão sobre como Donald Trump chegou ao poder. No entanto mais do que Trump ser a causa do que está mal na sociedade americana, a sua eleição foi uma consequência, sendo este o foco real do documentário: o desencanto da população americana com os partidos tradicionais e sua busca por alternativas.

Moore conhecido pela sua abordagem direta aos temas, muitas vezes trocista para quem quer criticar, tem os seus admiradores e detratores. No entanto temos de respeitar o facto de nos seus documentários muitas conseguir dar voz aqueles que não se conseguem ouvir. Neste último documentário um dos temas abordados foi o escândalo do abastecimento água contaminada em Flint, a sua cidade natal.


Este caso Flint começou quando o governador do estado do Michigan, no seguimento da declaração do Estado de emergência financeira da cidade, decidiu tomar algumas decisões controversas. Uma delas foi alterar a fonte de abastecimento da cidade do Lago Huron para o rio Flint, com a desculpa de redução de custos. Os níveis de acidez da água do rio Flint, tiverem um efeito de corrosão sobre a velha canalização de chumbo da cidade. Os primeiros testes independentes começaram a revelar elevados níveis de chumbo em análises de sangue a crianças, sabendo-se que tem efeitos graves e permanentes no seu desenvolvimento neurológico.

O mais grave neste caso foi a luta que os seus cidadãos (maioritariamente negros) tiveram de fazer para que fosse reconhecido que existia um sério problema de contaminação de água. As autoridades da cidade procuraram abafar o caso minimizá-lo e reafirmando a qualidade da água, inclusivamente falsificando análises sobre a concentração de chumbo. Poderíamos pensar que esta fúria dos cidadãos de Flint se refletiria numa má votação para os republicanos pois o governador do estado pertencia a esse partido. No entanto quando em 2016 a poucos meses da eleição presidencial, Obama visita a cidade, deixa chocado os seus habitantes, afirmando que tudo estava a ser feito para corrigir o problema e que garantia a qualidade do abastecimento e tendo inclusivamente bebido um copo de água diante uma multidão incrédula. Para a maioria dos habitantes negros de Flint, o gesto de Obama foi uma traição e a maior parte absteve-se nas eleições presidenciais de 2016 num estado - Michigan - onde Trump ganhou apenas por 10,000 votos…


Este exemplo de Flint que Moore usou no seu documentário, é sintomático do descontentamento de muita da população americana com a classe política tradicional, sendo que à direita movimentos como o Tea Party, Alt-Right ou evangélicos extremistas têm ganho peso crescente. No entanto neste documentário o foco também esteve concentrado no outro lado da barricada, pessoas que descontentes com a opções políticas atuais de esquerda procuraram alternativas. Esta tendência foi notória nas últimas primárias do partido Democrático para as eleições presidenciais, onde o candidato Bernie Sanders quase derrotou Hilary Clinton. Sanders pertence a uma ala mais à esquerda do Partido Democrático com maiores preocupações sociais e uma agenda política próxima dos partidos socialistas/sociais-democratas europeus, o que para os padrões americanos de liberalismo económico era quase uma heresia. No entanto para as populações mais pobres e economicamente vulneráveis e para as que se sentem excluídas, este discurso era encarado como uma lufada de ar fresco e uma alternativa ao populismo de Trump. Talvez muito dos ex-operários do Rusty Belt (estados como o de Michigan onde se concentrava muito da indústria automóvel americana) poderiam ter votado em Bernie Sanders em vez de Donald Trump.

No entanto foi Trump que ganhou as eleições presidenciais em 2016 e sua chegada ao poder foi uma surpresa para muitos milhões de americanos, sendo impressionante a quantidade de polémicas e situações chocantes resultado das suas palavras e dos seus atos. Muitos pensaram durante a sua campanha que seria mais moderado quando chegasse ao poder, mas tal foi uma curta ilusão. Têm atacado diariamente a imprensa americana chamando-os de inimigos do povo, retirando o acesso a certos jornalistas à Casa Branca. O uso das redes sociais permitiu a Trump chegar de forma massiva e direta ao seu eleitorado e espalhar a sua propaganda sem ter o contraditório que uma imprensa livre poderia fazer.

A imagem projetada de Donald Trump no Empire State Building na noite das presidenciais americanas foi um choque para muitos e o prelúdio para o que de pior se esperava dele

Na frente externa saiu do Tratado Paris, entrou em guerra comercial com vários países após cancelar unilateralmente vários acordos. Elogiou ditadores como Kim Jing-Un da Coreia do Norte ou Rodrigo Duderte das Filipinas, tendo sido dos primeiros a felicitar por telefone Jair Bolsonaro pela vitória no Brasil, ao mesmo tempo que abandonava aliados tradicionais como por exemplo os países europeus. Deu uma machadada final ao processo paz Israel-Palestiniano ao rejeitar como obrigatória a solução de dois estados e rasgou o acordo nuclear com o Irão ameaçando este país com uma guerra aberta. Economicamente cortou impostos à população mais rica, aumentando brutalmente o défice orçamental, ao mesmo tempo que ameaçava tornar mais difícil o acesso a cuidados de saúde ao procurar abolir o ObamaCare.

A suspeita permanente de conluio com as autoridades russas para a sua eleição em 2016 é algo que cada vez mais tem dificuldades em livrar-se, tendo mesmo demitido o diretor do FBI James Comey, descontente com o curso seguido pela investigação e ameaçou demitir também o procurador geral Jeff Session pelo mesmo motivo. Trump chegou mesmo a admitir que poderia usar a prerrogativa do perdão presidencial para perdoar-se a si próprio, se fosse considerado culpado de algum ato. Constantemente faz comentários lamentando o limite de dois mandatos presidenciais e mantém um enorme desrespeito por norma constitucionais, chegando mesmo a afirmar na semana passada que uma simples ordem executiva presidencial seria suficiente para ultrapassar a Constituição americana que prevê que todos as pessoas nascidas nos EUA têm acesso à cidadania americana. Trump foi mesmo um dos principais promotores da política de separação forçada de imigrantes ilegais das suas crianças algo que felizmente teve que recuar diante de uma decisão judicial. Tem defendido os movimentos extremistas de supremacia racial branca, como aconteceu na concentração que fizeram em Charlottesville no ano passado onde mataram Heather Heyer de 32 anos.


É neste contexto que as eleições intercalares de 6 de Novembro estão a ter uma importância nunca antes vista nos EUA, sendo encaradas como um plebiscito a Donald Trump. Vão ser disputados 35 dos 100 lugares do Senado (os republicanos têm 51 lugares atualmente, embora só 9 vão a eleições agora) e todos os 435 lugares da Câmara dos Representantes (os republicanos têm neste momento a maioria com 248 lugares). Caso os democratas ganhem as duas câmaras podem anular do ponto de vista legislativo Trump, para além do facto dos republicanos não extremistas terem uma desculpa para deixarem de apoiar Trump e escolherem outro candidato republicano mais moderado nas próximas eleições presidenciais de 2020.

Mas os democratas apesar de boas sondagens (também as tinham nas eleições presidenciais de 2016) enfrentam os mesmo problemas de descontentamento à esquerda. Muitos dos seus mais prestigiados congressistas têm dito dificuldades com as primárias. O mais conhecido exemplo é o congressista Joe Crowley que perdeu estrondosamente nas primárias democratas no seu distrito eleitoral. A vencedora foi Alexandria Ocasio-Cortez, uma jovem de 28 anos, que desiludida com a classe política atual decidiu concorrer contra Joe Crowley, um dos políticos democratas com maior peso no Congresso que tinha boas perspetivas de chegar a speaker da Câmara do Representantes (um cargo muito prestigiado, 3º na linha hierárquica política a seguir ao Presidente e Vice-Presidente americanos). Alexandria Ocasio-Cortez, que faz parte do grupo dos sociais democratas americanos, derrotou-o sem dificuldades com um discurso direto, porta-a-porta, voltado para os mais jovens e vulneráveis prometendo lutar por educação e saúde gratuitas e que o Estado assuma o papel de último empregador para todos os desempregados.


Esta mobilização popular nos EUA dos mais jovens tem-se notado muitas vezes sem envolvimento das estruturas partidárias. O melhor exemplo é o que se seguiu a mais um tiroteio que ocorreu numa escola americana em Parkland em Fevereiro que causou 17 mortos. Jovens estudantes daquela escola organizaram-se e fundaram um movimento de protesto para que os legisladores aprovassem leis mais restritivas para posse de armas. No passado dia 24 de Março fizeram algo que parecia impossível. Uma marcha nacional de protesto em 800 cidades que juntou centenas de milhares de pessoas em várias cidades dos EUA. Emma Gonzalez, de apenas 18 anos, o rosto mais visível deste movimento e fez um poderoso discurso diante 500 mil pessoas em Washington. Os democratas tentaram aproveitar a força política de Emma Gonzalez, mas sem sucesso, pois esta é toda uma nova geração que não quer aliar-se ou seguir a classe política atual, preferindo no limite abster-se em eleições.

O movimento March Of Lives causou enorme desconforto nos partidos Republicano e Democrático. Um grupo de jovens com 18-19 anos conseguiu organizar uma gigantesca manifestação de 1,2 milhões pessoas em 800 cidades americanas pelo controlo de armas. São o sinonimo de uma geração mais jovem e de um segmento da população que não se revê na classe politica atual e prefere agir por conta própria

Existe, no entanto, uma comparação injusta que é assumir uma equivalência entre estes movimentos populistas de direita e esquerda. Nada mais errado. Não são comparáveis movimentos de direita que apelam ao racismo, sexismo, homofobia ou xenofobia, com movimentos de esquerda que prometendo o sonho utópico do paraíso na Terra onde tudo é gratuito e apenas os ricos pagam impostos, não têm pelo menos como programa principal, retirar os mais básicos direitos humanos. É por isso que candidatos como Alexandria Ocasio-Cortez, que será provavelmente a mais jovem congressista americana de sempre, serão sempre melhores alternativas que os candidatos republicanos que pensam nos mesmo moldes que Donald Trump, mesmo que as suas promessas e sonhos utópicos sejam irrealizáveis. O partido Democrático terá que se renovar e conseguir voltar a ouvir o que as pessoas querem, abrindo espaço para uma nova geração de políticos ou então enfrentar uma cisão inevitável.

As eleições intercalares americanas do próximo dia 6 de Novembro, como definiu Obama, são as mais importantes de sempre nos EUA. Escolhe-se entre a normalização de um discurso e práticas extremistas de Trump ou de forma contrária uma oportunidade para mostrar um cartão vermelho, que reponha os EUA numa trajetória de normalidade democrática. Se as forças que agora procuram derrubar a democracia não forem paradas em Novembro, arriscamos a ter o país militarmente mais poderoso do mundo, com um exército de 1,3 milhões soldados, deixar de ser o arsenal da democracia (como o ex-presidente Roosevelt usou como slogan na 2ª Guerra Mundial), mas um novo promotor da tirania. Os direitos uma vez conquistados não se tornam permanentes: é necessário uma maioria que esteja disposta a lutar diariamente por mantê-los.

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