Uma traição anunciada pelo Twitter



“É a única forma de evitar mais um gigantesco massacre”. Este curto tweet de uma das contas que acompanho de intervenientes curdos na guerra da Síria procurava justificar porque fizeram uma espécie de pacto com o diabo. Tratava-se do convite desesperado feito a forças governamentais do regime sírio de Assad para entrarem em território controlado pelos curdos por forma a poderem evitar algo pior: a já anunciada invasão turca e das suas milícias.

A Turquia, e as milícias sírias sob seu controlo, nos últimos dias concentraram forças para preparar a invasão a Manbij, que será a primeira cidade a ser atingida por esta nova ofensiva turca. A população em pânico certamente recordará o que aconteceu no início do ano na região contigua de Afrin, quando uma invasão semelhante provocou centenas de milhares de refugiados (como os da foto acima que antecede este texto), operações de limpeza étnica sobre os curdos e a instalação de um regime autoritário numa região que tinha sido poupada durante grande parte da guerra da Síria. As declarações gravadas de uma milícia turca que invadiu Afrin são claras sobre a realidade do que está em jogo para os curdos: “Nenhum curdo entre os 15-50 anos deve ser autorizado a ficar em Afrin. Está no nosso direito. Nós temos de expulsá-los e deixá-los sem-abrigo. Aos curdos não devia ser autorizado sequer respirarem.




O mais impressionante é que todos estes recentes desenvolvimentos foram causados por Donald Trump anunciando a retirada unilateral das tropas na Síria terminando uma parceria com os curdos sírios, que foram de longe a força de combate mais eficaz na Síria na derrota do Daesh (Estado Islâmico). Deixou-os com uma escolha impossível entre o regime governamental de Assad e o governo turco que mantém uma luta de décadas contra a minoria curda dentro e fora das fronteiras turcas. O sentimento de traição por parte dos curdos é gigantesco em relação aos EUA e aos países ocidentais, após estes os terem incentivado a fazerem o trabalho de combater as forças do Daesh conquistando inclusivamente a sua capital Raqqa no ano passado. A decisão de Trump foi unilateral, sem consultar os seus conselheiros e resultou na demissão por desacordo do seu secretário de Defesa James Matt Davis e de Bret McGurk que era o enviado especial do presidente para a coligação internacional anti-Daesh.



Qual o estado presente da guerra da Síria? Vejamos as partes atualmente envolvidas:

  • Governo Sírio – O regime liderado por Assad e apoiado pela Rússia e o Irão neste momento controla grande parte da Síria, tendo conquistado este ano as regiões rebeldes no sul em torno da cidade de Daraa, cidade onde se iniciou a revolta contra Assad e que sua conquista marcou também o fim simbólico de toda a resistência rebelde. Este ano Assad também tentou conquistar Idlib, uma pequena província controlada pelo Hay'at Tahrir al-Sham (próxima da Al-Qaeda) e por milícias apoiadas pela Turquia. A forte oposição da Turquia e o não apoio da Rússia que na altura disputava com os EUA um pacote de venda de armamento à Turquia, fizeram com que operação sobre Idlib fosse cancelada. A Rússia mantém ainda uma forte influencia sobre Assad, ao mesmo tempo que tenta manter boas relações com a Turquia procurando afastar este país da esfera de influência dos americanos.
  • Curdos - controlam todo o nordeste sírio a leste do Eufrates, um estado semi-autónomo apoiado nas SDF uma aliança formada maioritariamente pela milícia curda YPG e outras de menor peso de origem sunita. Todo este território foi conquistado ao Daesh (Estado Islâmico) numa parceria militar com os EUA e outros países ocidentais que forneceram cobertura área e equipamento militar para esta campanha. Pagaram um preço elevado: mais de 10 000 mortos em combate. Neste momento tentam conquistar as últimas localidades controladas pelo Daesh, junto à fronteira com o Iraque, ao mesmo tempo que são ameaçados pela Turquia. No início do ano perderam Afrin para a Turquia, sem que os americanos os ajudassem e é por isto que estão a levar a sério esta decisão de Donald Trump. Entre o risco de aniquilação às mãos dos turcos será inevitável que se aliem com o governo sírio - com o qual mantiveram uma relação de neutralidade durante a guerra - mas será este último que ditará todas as condições e estará numa posição negocial forte.

Apesar do anúncio de vitória de Trump as forças curdas continuam a combater o Daesh (Estado Islâmico), como nestas imagens recolhidas a 23 de Dezembro, junto à fronteira com o Iraque. Para quem achar invulgar, é regra geral as mulheres curdas combaterem em igualdade de circunstâncias com os homens na frente de combate.

  • Turquia – este país mantém um longo historial de conflito como os curdos, constituindo estes uma das principais minorias dentro das suas fronteiras. Combatem o PKK (classificado como organização terrorista) que objetivamente tem laços de proximidade com a sua congénere síria YPG apoiada pelos países ocidentais. Confrontado com os sucessos do YPG contra o Daesh (Estado Islâmico), o presidente turco Erdogan decide invadir a Síria em 2016 conquistando Al-Bab (ainda controlado pelo Daesh) por forma a evitar que os curdos dominassem todo o norte da Síria. Foi controlando (ou mais exatamente “comprando”) várias milícias que combatiam contra o governo sírio de Assad, convencendo-as agora a combater os curdos. A invasão de Afrin no início do ano foi arriscada, mas certificou-se previamente que os EUA não intervinham em auxilio dos curdos. Agora ameaçam a região adjacente de Manbij, que será novamente de fácil conquista se os americanos recuarem.

Sigo este conflito há vários anos e se é certo que várias partes cometeram atrocidades, sempre tive muito mais respeito pelos curdos que procuraram conceder às populações sobre seu controlo grande autonomia. Numa guerra onde existem grupos com ideologia fundamentalista islâmica como o Daesh (Estado Islâmico) ou milícias próximas da Al-Qaeda, os curdos sempre tiveram em termos de organização social uma total igualdade entre homens e mulheres que se estendeu às forças militares, onde estas combatem em igualdade de circunstancias com os homens. Inclusivamente a operação para libertação de Raqqa (capital do Estado Islâmico) foi liderada por uma mulher.




Imagens de patrulhas americanas na cidade de Manbij recolhidas a 23 de Dezembro. Os seus habitantes sabem que estes soldados americanos são o único obstáculo atual a uma invasão do exército Turco e das suas milícias

Mas a mensagem mais importante é de gratidão. O nº de ataques do Daesh (Estado Islâmico) na Europa reduziu-se substancialmente, já não há viagens de europeus para se radicalizarem em campos de treino no norte da Síria e já não há o comércio de escravas yazidis como foi do destino de Nadia Murad que ganhou o prémio Nobel da Paz este ano. A tudo isto devemos aos milhares de homens e mulheres curdos que morreram em combate, em vez soldados americanos e europeus. É por isso que o Ocidente tem uma obrigação moral de ajudar de curdos sírios e não abandoná-los cobardemente, confrontando-os com uma escolha impossível sobre a qual dos tiranos devem agora obedecer: Assad ou Erdogan.


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