Preservar a memória dos que partiram. Como a tecnologia está a criar um mundo novo e controverso


 
A pandemia de COVID-19 expôs de forma clara dois dos nossos maiores medos do dia-a-dia: o da nossa mortalidade e daqueles que nos são mais próximos. Ao atingir principalmente os mais idosos, tem a agravante adicional de destruir de forma permanente algo também precioso: as memórias e as experiências de uma vida passada, que deixam de estar disponíveis para as gerações futuras.

Neste sentido para quem viu esta semana a reportagem (link aqui) do programa 60 minutos da CBS (retransmitido na SIC Noticias), foi confrontado com um projeto inovador e disruptivo, por parte Heather Maio, sobre a forma de preservar testemunhos de vida. Apresentou a sua ideia à USC Shoah Foundation que a pôs em prática. Nas palavras dela “queria poder conversar com um sobrevivente do Holocausto sentado à minha frente e ouvir o seu testemunho mesmo depois da sua morte”. O projeto consistia em entrevistar sobreviventes do Holocausto recolhendo de forma exaustiva respostas a mais de 2000 questões. Depois usando múltiplas câmaras para essa entrevista e recorrendo a tecnologia de inteligência artificial, criou-se uma versão digital dessa pessoa que pode ser projetada como um holograma 3D, a quem podemos fazer livremente questões de forma interativa, preservando o testemunho original destes sobreviventes, mesmo depois de falecerem.




As questões podem ser feitas oralmente de forma totalmente livre, sendo o algoritmo de inteligência artificial com base na entrevista prévia, que escolhe a melhor resposta. Existem questões mais óbvias como por exemplo “O que aconteceu quando chegou ao campo de concentração? ou ”Viu pessoas a serem mortas?”. Mas também podem-se fazer as questões mais difíceis como por exemplo “Ainda mantém a fé em Deus depois do Holocausto?” ou “Pensou muitas vezes em vingança?”. A recolha exaustiva de mais de 2000 respostas permite abranger quase tudo o que uma pessoa do nosso tempo presente poderia perguntar a um sobrevivente do Holocausto. Como o programa foi testado também por crianças, as pessoas entrevistadas também tiverem de responder previamente a questões mais banais como por exemplo “qual o seu prato favorito?” que parecendo despropositadas para serem efetuadas a alguém que sobreviveu a um genocídio, reforçam a intemporalidade da entrevista, por forma a que daqui a 50 anos, possamos saber como se vivia nesse período.

Heather Maio desde o início do projeto foi abordada individualmente por várias pessoas, que a convenceram a alargar o conceito original. Pessoas que queriam criar esta versão holográfica para si ou para alguém próximo. Este salto em frente foi dado com a criação da StoryFile e existe inclusivamente uma app em versão beta (apenas para iphone), onde já podemos interagir, questionando algumas destas pessoas virtuais, visto que muitas aceitaram que o seu testemunho fosse público (ver video abaixo)


Este salto tecnológico coloca-nos várias interrogações, sendo a principal sobre se precisamos mesmo disto. É um hábito intemporal a escrita de memórias pessoais, onde se procura consolidar toda experiência de uma vida, por forma a se poder passar para as gerações futuras. Neste aspecto estas versões digitais conseguem de forma mais fácil cumprir este desígnio. No entanto isto também pode ser muito mais. Pode-nos parecer estranho a esta distância, mas os primeiros usos da fotografia quando surgiu no sec XIX, era fotografarem-se as pessoas após morrerem, para que a família pudesse ter uma recordação permanente, isto tudo porque era extremamente caro tirar um foto na altura.

Esta necessidade de uma recordação mais permanente dos que partiram, é algo que se mantém e que agora podemos ter de uma forma totalmente nova. A ideia podermos dialogar com os nossos pais e mães após falecerem tem um misto de reconfortante e assustador ao mesmo tempo. No entanto já nos parece mais pacífica a ideia um neto/bisneto que nunca interagiram com o avô/bisavô (por serem muito jovens ou ainda não terem nascido na altura da sua morte) poderem querer conhecer de forma mais direta as suas histórias.

A tecnologia trouxe-nos uma nova forma de recolher o testemunho de vida de todos nós. No entanto é o reflexo de dois dos nossos receios mais profundos: o medo de não ficarmos com uma recordação permanente daqueles que nos são mais próximos e o medo de partimos um dia sem ter deixado um legado relevante ao mundo. No fundo somos confrontados com a suprema questão existencial que assola a humanidade desde o seu início: Porque vivemos?

 

Links:

Reportagem CBS: https://www.cbsnews.com/news/holocaust-stories-artificial-intelligence-60-minutes-2020-04-05/ https://www.cbsnews.com/news/artificial-intelligence-holocaust-remembrance-60-minutes-2020-04-03/

Site Oficial StoryFile: https://storyfile.com/

Site Oficial do Documentário “116 Camaras”: https://www.116cameras.com/

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